Ana Pereira

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O que fotografo quando fotografo

No meu trabalho pessoal enquanto fotógrafa procuro a representação de uma beleza, a representação de uma organização que seja em termos visuais o mais apetecível possível. Procuro uma melancolia que me embale. Procuro a tranquilidade. Procuro o que foi! Quando fotografo o outro, quero o outro, mas quero-o numa visão que é minha e que encontra eco na minha memória. Tenho uma imagem emocional do outro, às vezes sensação, às vezes convenção e procuro realizar essa imagem. Não trabalho com o outro. Não é um processo colaborativo. Não peço ao outro ideias. Aceito apenas as participações que me devolvam a minha própria convenção. O presente – o momento do acto fotográfico – existe enquanto procura do passado.
No entanto, não é possível transpor essa mesma premissa anterior do trabalho pessoal para todos os trabalhos comerciais que faço. E aqueles em que não o faço, aqueles em que é preciso procurar a rapidez, o presente, o oposto da melancolia, não me agradam de todo. Na fotografia de cena existe sempre, ou quase sempre, uma beleza e uma sensação emocional a que me posso ligar. Quando essa beleza ou imagem emocional não existe, o meu impulso para fotografar é comprometido. Tenho dificuldade na acção, no rápido. Gosto da contemplação. Contudo, no trabalho de reportagem consigo fazê-lo, porque é essa a premissa do trabalho, a minha responsabilidade. E procuro uma outra concentração, mais livre dos meus conceitos internos, compenetrada no sentido do tema e objectivo da imagem e na procura de uma visão.

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